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  • Camila Borja

De uma vida para duas malas - meus 6 anos no Canadá

Daqui a exatas duas semanas irá fazer seis anos que cheguei no Canadá. Seria clichê falar que ainda me lembro como se fosse ontem, mas parece mesmo que foi ontem.

Taí o Facebook que não nos deixa esquecer.


Lembro do meu irmão me ligando uns dois meses antes desse dia, perguntando se eu topava ir com eles para o Canadá. “Uai, porque não?” foi a minha resposta assim mesmo, por telefone, pá-pum, bem mineira.


Eu ouvia pouco falar do Canadá. Por coincidência, lá atrás na 6ª ou 7ª série, minha classe havia sido escolhida para representar o país na feira de cultura da escola, e um grupo, incluindo eu, ficou responsável por preparar a comida típica canadense. Não sei como chegamos à essa informação sobre essa terra tão longínqua e pouco conhecida (não existia o Sr. Google na época), mas o prato que apresentamos foi a Torta de Abóbora (a famosa pumpkin pie, que, mais tarde, fui descobrir é um prato mais típico nos Estados Unidos do que no Canadá).


Dia 29 de Maio de 2014 pousamos, eu, meu irmão e minha cunhada, em Vancouver. Desfiz de literalmente tudo o que tinha no Brasil, me despedi da família e dos amigos, e, com duas malas, cheguei para ficar. Na verdade, eu havia explicado para todo mundo que iria apenas estudar inglês por alguns meses, mas, no fundo, eu não considerava voltar.

Tudo o que eu tinha estava aí, nesse armarinho escuro e apertado.

Mas por dentro eu estava felizona! :)


Eu sempre quis esse desafio. Sair do meu mundo e da minha zona de conforto, respirar novos ares, ser uma “zé ninguém” para outras pessoas, e ver o que resultaria disso. “Uai, porque não?”.


Uma breve linha do tempo desses meus seis anos até aqui.


Foram quatro meses de curso de inglês (tempos bons de fazer "turistagem" com os colegas estrangeiros, e de comer toda a novidade em forma de açúcar e fast food possível), e depois o mesmo curso me daria direito a mais quatro meses de trabalho (ok, acho que eu deveria ter focado mais nas aulas de inglês...).

O "batismo" do recém-chegado é postar ao menos uma foto com escritos na neve, ou da folhinha típica do Canadá (a "Maple Leaf"). Eu fiz os dois. De uma só vez.


Chegou a hora da verdade: volto ou fico? Bom, a resposta vocês sabem.


Para ficar, eu teria que me matricular em uma universidade canadense para um curso de, no mínimo, dois anos. Dessa forma eu receberia, quando formada, uma permissão de trabalho (Work Permit) de mais dois anos. Maravilha!


(Só um parênteses aqui: a outra opção que me permitiria ficar no Canadá seria encontrar o amor da minha vida e me casar em seis meses, mas né? Naquela época eu tinha certeza de que seria mais fácil enxugar gelo do que encontrar o tal amor da vida...).


Enquanto fazia a Pós-Graduação em Negócios (Business Administration), eu trabalhava o quanto dava, geralmente à noite e nos finais de semana. Estudar aqui foi bem apertado! Era um tal de trabalho de casa, apresentações em grupo, palestras, fora a luta diária para, enfim, dominar o bendito do inglês, ler, escrever, falar e entender.


Nessa época também, grana curta, dividi apartamento com outras pessoas (minhas roommates). Pessoas maravilhosas, diga-se de passagem! Foi assim que eu ia construindo minha pequena "família" em terras estrangeiras.

Época boa, essa de ter roommates... :p


Antes mesmo de me formar, fui contratada para trabalhar em um escritório, trabalho "estável" de Segunda a Sexta, de 9 às 5, com “carteira assinada” (na verdade não existe Carteira de Trabalho no Canadá, e sim contratos de trabalho entre empregadores e empregados). Eu havia mandado meu currículo para essa empresa na esperança de conseguir mais um trabalho de meio período (part-time) e assim fazer uma graninha a mais.


A recrutadora gostou tanto de mim e do meu currículo (haja sorrisão com essa boca cheia de dentes!), que perguntou se eu não gostaria de conversar com a "General Manager" para uma vaga melhor, e fui contratada ali, na hora. Lembro de sair de lá sem saber se ria ou se chorava.


Nesse momento, dois anos depois da minha chegada, eu me senti aqui, pertencida, invencível, fincada com os dois pés em terras canadenses. Vitória!

A partir daí a vida foi começando a entrar nos eixos, ou seja, a se tornar mais familiar para mim: acordar, trabalhar, voltar para casa, comida e cama. Estava cada vez mais à vontade com a cidade, com a língua e a cultura canadense, e com outras diferentes culturas (Vancouver é um verdadeiro mix de pessoas de todos os lugares possíveis do mundo!). Nessa época eu já morava sozinha, tinha meu carro, (pagava um bocado de contas, fora os impostos), tinha um pouco mais de luxo, saia e fazia o que me dava na telha.

Não tava dando para reclamar mesmo não.


Nesse meio tempo também, com uma força da mesma “chefona” que me contratou, consegui a tão almejada residência permanente (Permanent Residency, ou o famoso “PR”), que, mais tarde, me permitiria conquistar a cidadania canadense.


Até que eu conheci meu (atual) marido, um Mexicano “jogado” nesse mundão assim como eu, mais novo do que eu, mas com a mesma energia e planos de vida bem parecidos. A nossa história pode ser um conto à parte, mas apenas para completar essa linha do tempo: o então amigo de uma amiga que começou como “nossa, nada a ver eu e ele”, passando a ser meu amigo, depois companheiro de trilhas, para mais tarde morarmos juntos, noivarmos, e casarmos. Assim, rápido.

Da época em que ele era apenas o Toddynho, meu companheiro de aventuras.

(Piada velha e sem graça, eu sei...)


Enfim, ainda me pergunto no que exatamente eu mudei durante esses seis anos de Canadá. Foi muito, parece - e foi mesmo! Mas para mim não foi nada.


Continuo a mesma menina corajosa, com vontade de rodar o mundo e de viver em um lugar diferente a cada seis meses. Começaria do zero de novo, fácil, se preciso fosse. Diria “uai, porque não?” para um novo desafio ou para uma oportunidade, sem pensar duas vezes.


Iria, humilde, mas determinadamente, abrindo minha estradinha nesse “mundo cão”, engolindo o choro quando acontecesse, ou vibrando e dando pulinhos ridículos a cada conquista.


Daria o mesmo valor que eu sempre dei à minha família: minha mãe, meus irmãos e meu saudoso paizinho.


Continuaria investindo meu dinheiro em mim, em experiências e momentos que me façam crescer e melhorar como pessoa.


Por fim, não acumularia coisas nem bens materiais desnecessários ou apenas por status.


A vida é um sopro e dela a gente não leva nada mesmo. E, além disso, ficaria difícil colocar tudo em duas malas de novo.


Com amor (e humor),

Camila

❤️

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